joao wengorovius meneses entrevistado na quidnews 30

João Wengorovius Meneses

Acredita que as tecnologias digitais podem apoiar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Se sim, consegue indicar-nos os objetivos em que a tecnologia tem maior potencial de impacto?

Ao longo do século XXI, os dois maiores vetores de transformação das sociedades, das economias, dos modelos de negócios das empresas e dos estilos de vida de todos nós, serão a transformação digital e a sustentabilidade.

Os impactos das tecnologias digitais sentiram-se no início do século, ao ponto de vinte anos depois o mundo digital ser um novo paradigma. Já o impacto transformador da sustentabilidade começará a sentir-se a partir desta década, por exigência crescente de reguladores, investidores, clientes, trabalhadores, entre outros stakeholders, e porque, se assim não for, o planeta será um lugar inabitável ainda antes do fim do século.

Temos apenas a década de 2020-30 para transitar, a nível global, para um novo paradigma de modelo desenvolvimento, que seja menos materialista, consumista, linear e ineficiente, e que seja sustentável, se possível regenerativo. Os níveis de tensão ecológica e social atuais são insustentáveis. Seriam precisos mais de dois planetas para que os nossos modelo de desenvolvimento e estilos de vida atuais fossem viáveis. Nunca, na história da Humanidade, os níveis de sobre-exploração dos recursos naturais da biosfera, de emissão de gases com efeito de estufa, de produção de resíduos e poluição dos ecossistemas, e de desigualdades sociais, foram tão elevados.

Por outro lado, nunca a Humanidade foi tão rica e tão dotada de conhecimento e tecnologia. Relativamente à tecnologia, o desafio é utilizarmos todo o potencial de todas as derivadas da revolução da indústria 4.0 para acelerarmos a transição para sociedades 5.0, isto é, sociedades superinteligentes e superconectadas, mas centrada nas pessoas e no planeta, não apenas em ganhos de produtividade e riqueza. A tecnologia tem um potencial imenso para ser um enabler de todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Em muitos casos, as tecnologias digitais irão aparecer combinadas com a sustentabilidade por defeito – é assim, por exemplo, no domínio dos modelos de negócio próprios da economia da partilha, os quais promovem a otimização dos recursos disponíveis e são profundamente digitais. Noutros casos, ainda agora estamos a começar a perceber o potencial da revolução da indústria 4.0 para a construção de sociedades mais coesas e sustentáveis.

E quais as áreas que melhor podem usufruir da tecnologia?

Em linhas muito gerais, as tecnologias digitais podem contribuir para tornar as sociedades e as cadeias de valor das empresas mais eficientes, mais transparentes e mais humanas.

Vejamos alguns exemplos práticos relacionados com a dimensão eficiência, isto é, com a otimização do uso de recursos, tais como, matérias-primas, energia, água, entre outros:
– Todos os modelos de negócio próprios da economia da partilha (i.e., partilha de carros, bicicletas, alojamento, roupa, ferramentas, etc.), que permitem a transição de uma lógica de propriedade dos ativos, para uma lógica de usufruto de um serviço, são tornados possíveis pelas tecnologias digitais e são importantes para a sustentabilidade (pois permitem otimizar os recursos disponíveis);
– O recurso a inteligência artificial na medicina, no setor agroalimentar ou na otimização de circuitos de transporte e logística;
– O recurso à internet das coisas e a sensores para tornar as cidades, as casas e as cadeias de valor mais inteligentes;
– O recurso a drones para entrega de produtos (eliminando a pegada carbónica da ida do cliente às compras ou de entregas ao domicílio por via rodoviária);
– O recurso a impressão 3D para produção on site e on demand (o que permite eliminar o desperdício, longas cadeias de valor e a armazenagem de produtos e subprodutos);
– A incorporação de chips nos materiais de construção, de modo a permitir a sua reutilização ou reciclagem no fim do seu período de vida útil
– Algumas soluções de gamificação, importantes para modular comportamentos (por exemplo, no que diz respeito à mobilidade ou ao tratamento dos resíduos sólidos urbanos) integram mais do que uma destas tecnologias digitais.

Vejamos, agora, alguns exemplos práticos relacionados com a transparência:
– Através de blockchain é possível rastrear e tornar transparentes as cadeias de valor das empresas, o que permite, por exemplo, dar informação ao consumidor final acerca da pegada carbónica ou hídrica do produto que pretende adquirir, ou acerca do preço pago ao fornecedor das matérias primas ou aos trabalhadores que as transformara. Dotado desta informação, o consumidor pode, então, fazer do consumo um ato de cidadania (e o regulador poderá atuar).
– O recurso a softwares de monitorização da cadeia de valor e de apoio ao reporte de informação não-financeira ajudar as empresas a compreenderem e partilharem os seus diversos impactos, tangíveis e intangíveis, positivos e negativos, para o planeta e as pessoas;
– O recurso a drones e a outras tecnologias digitais para ações de vigilância e prevenção de riscos ao longo da cadeia de valor, nomeadamente de caráter ambiental (deflorestação, caça ilegal, etc.).

Por último, as tecnologias digitais também têm um enorme potencial para contribuir para humanizar as cadeias de valor das empresas. Vejamos alguns exemplos:
– O recurso a drones para vigiar e entrada de fábricas ou campos agrícolas ou minas, de modo a procurar identificar trabalho infantil;
– O recurso a realidade virtual para preparar reclusos em fim de pena para o regresso à sociedade (ou pessoas a terminar processos de reabilitação de dependências);
– O recurso a robots para acompanhamento de pessoas idosas ou com dificuldade de mobilidade;
– O recurso a drones para entrega de medicamentos e cuidados de saúde em zonas remotas;
– O recurso apps para acesso aos mercados financeiros e ao crédito em países em desenvolvimento;
– O recurso ao teletrabalho para conferir maior flexibilidade e melhor compatibilização trabalho-família.

Em comparação com 2015, altura em que as Nações Unidas desenharam e adotaram os ODS, a conjuntura socioeconómica está totalmente diferente devido à pandemia, que veio dificultar o cumprimento do programa. A 10 anos da meta, parece-lhe ainda possível atingirmos estes Objetivos?

Não será fácil atingirmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. As boas notícias são já haver um alinhamento dos diversos players nesse sentido (setor público, setor privado, academia e sociedade civil) e nunca a Humanidade ter sido tão rica e dotada de conhecimento. A má notícia é que não estamos a avançar ao ritmo necessário.

É fundamental que as empresas invistam mais em inovação (por exemplo, em novos materiais, novas tecnologias, novos modelos de negócio, novas soluções de design, novos processos, novas fontes de energia, etc.), que os Governos apertem a malha da regulação e afinam o sistema de incentivos, que os centros de conhecimento adotem o propósito ou a sustentabilidade como temas chave, e que cada um de nós (nos nossos múltiplos papéis) adotemos novos comportamentos.

Atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável depende, desde logo, da adoção em larga escala de 5 Rs, com vista a tornar as cadeias de valor das empresas e as economias circulares: Redução dos níveis de consumo e produção; Reinvenção das cadeias de valor (materiais, design, tecnologias, etc.); Reutilização e Reciclagem em larga escala; e Recusa de certos processos, bens ou marcas.
Porém, atingir os ODS até 2030, não depende apenas de cooperação entre os diversos players, da adoção em larga escala dos 5Rs ou de tecnologia. Depende também – e em larga medida – de financiamento em larga escala.

Há cada vez mais financiamento público e privado disponível para a transição para a sustentabilidade. só o Pacto Ecológico Europeu vai investir mais de um bilião (um milhão de milhões) de euros, até 2030, e Portugal poderá investir 2 mil milhões de euros por ano na economia verde, até 2027. Já ao nível do investimento privado, o maior fundo de investimento do mundo (a BlackRock), com uma carteira de investimento que vale o dobro do PIB alemão, tem a sustentabilidade como principal driver de investimento.

Ainda assim, são necessárias mais fontes de financiamento. Uma taxa sobre o carbono ou a remuneração dos serviços de ecossistemas poderiam ser excelentes fontes de financiamento dos ODS. Mas, no limite, também será uma questão de opções. Segundo uma estimativa da OCDE de 2019, atingir os ODS até 2030 implicaria um investimento anual de cerca de 2,5 biliões de USD. Trata-se de uma quantia equivalente a cerca de 10 vezes o PIB português, parece muito elevada, porém, o valor anual do comércio (legal e oficial) de armas a nível mundial é de 1,8 biliões de USD…

Em 2020, ficámos a saber que não cumprimos nenhuma das metas do Acordo de Aichi para a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas, delineadas em 2010 e assumidas pelos Estados de todo o mundo, soba égide da ONU. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2000-2015), que antecederam os ODS, também não haviam sido cumpridos. Por outro lado, temos batido recorde atrás de recorde em emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera nos últimos anos. Neste momento, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é equivalente à que era há 3 milhões de anos, altura em que a temperatura terreste era 3-4º superior a e nível da águas do mar 10-20 metros acima.

Não temos mais tempo a perder! Que as boas notícias do buraco na camada de ozono (que nos protege das radiações ultravioleta) estar a recuperar bem, depois de terem sido tomadas sérias medidas na década de 1980 a nível global, e da União Europeia ter conseguido aumentar o seu PIB e diminuir as suas emissões de gases com efeito de estufa nos últimos 30 anos, nos motivem para a caminhada. Tendo sempre presente, porém, que a resiliência do planeta não é infinita – e que está, aliás, muito perto do limite!

A situação pandémica alterou a forma como as empresas apoiadas pelo BCSD olham para a sustentabilidade? O foco na sustentabilidade manteve-se?

Na sequência das crises de 2008-2011, denominadas do subprime e das dívidas soberanas, o BCSD Portugal perdeu bastantes membros. Nessa altura, os Estados foram muito céleres a injetar liquidez no sistema, de modo a recuperar rapidamente os níveis de produção, consumo e investimento. Porém, não se aproveitou a oportunidade, o reset, para tomar medidas mais estruturais e disruptivas, capazes de acelerar a transição das sociedades para a sustentabilidade. Ora, o que percebemos com esta pandemia é que a falta de coesão social e os diversos e crescentes desequilíbrios na biosfera são fragilidades tão sérias, sistémicas e estruturais, que darão origem a crises pandémicas e a crises socioeconómicas cada vez mais frequentes.

Desta vez, o choque com a pandemia foi tão frontal, global e dramático que, para além da recuperação económica, também se está a procurar responder a diversos desafios sociais e ambientais, isto é, relacionados com a sustentabilidade do nosso modelo de desenvolvimento. No Fórum Económico de Davos deste ano, bem como no seu Global Risks Report 2021, a sustentabilidade e a reinvenção do capitalismo são os temas centrais.

Será interessante acrescentar que, em 2020, e apesar da crise, a variação líquida de membros do BCSD Portugal foi de mais oito. Mas, este ano, em apenas um mês, já foi de 10! E não se trata apenas do número de membros estar a crescer a um ritmo invulgar, estes são, também, cada vez mais exigentes e estão cada vez mais presentes nas nossas atividades e grupos de trabalho – o que é excelente!

De que forma é que o BCSD Portugal apoia as empresas associadas na busca pela sustentabilidade?

O BCSD Portugal apoia as suas empresas associadas na sua jornada para a sustentabilidade, dando acesso a conhecimento e a iniciativas que ajudem – cada empresa a seu ritmo e de acordo com o seu setor – a transformar as suas cadeias de valor e modelos de negócio no sentido da sustentabilidade.

Grupos de trabalho sobre diversos temas, um programa formativo assente em quatro etapas, diversos eventos temáticos ao longo do ano, projetos com financiamento da União Europeia e diversos tipos de iniciativas de comunicação constituem a base da nossa atuação. Recomendo vivamente uma visita ao nosso site.

Em que medida é que uma empresa que tem a sustentabilidade como um dos eixos centrais da sua operação se torna mais competitiva no mercado?

Se olharmos para o passado recente das empresas portuguesas no que diz respeito aos drivers de competitividade, nas décadas de 1970/80 foi o imperativo da produtividade, depois da qualidade, depois da incorporação de mais conhecimento e valor acrescentado, depois da transformação digital, hoje é o da sustentabilidade. Porquê? Porque a generalidade dos stakeholders assim o exige – reguladores, investidores, clientes, trabalhadores e comunidades impactadas –, e porque a sustentabilidade é, hoje, a maior fonte de oportunidades de investimento e negócio, com muitos dos seus mercados a crescer a dois dígitos ou mais.

Mas vejamos com maior detalhe. A sustentabilidade tem vários benefícios para as empresas, o primeiro dias quais contribuir para a sua eficiência operativa e financeira. Ao reduzir a intensidade de uso de matérias-primas, energia, água ou quaisquer outros recursos no processo produtivo, bem como a produção de resíduos, poluição ou emissão de gases com efeito de estufa, a empresa melhora diretamente a sua rentabilidade económico-financeira.

Mas a sustentabilidade é, também, fundamental como medida de gestão de risco para os investidores. Fazendo uma análise do último Global Risks Report do World Economic Forum, rapidamente se constata que a maioria dos riscos que se considerem ter maior probabilidade de ocorrência e impacto estão relacionados com o tema da sustentabilidade (ambiental e social). Não se trata apenas de procurar mitigar os riscos decorrentes, por exemplo, das alterações climáticas, da rutura ou aumento do preço das matérias-primas, por via da sua escassez (convém não esquecer que o seu stock é finito), ou os riscos reputacionais (hoje, um tweet facilmente arruína a reputação de uma empresa que levou anos a construir – por exemplo, quando estas se envolvem com fábricas que recorrem a trabalho infantil, ou não respeitam a igualdade de género, ou dão informações erradas acerca das suas emissões, ou provocam desastres ambientais). Cada vez mais, as empresas que não forem sustentáveis, isto é, que não integrem bem os fatores ESG (environmental, social e corporate governance), terão de pagar um prémio de risco, o qual será cada vez maior.

A evolução no comportamento das bolsas, nos EUA e na Europa, em 2020, durante a pandemia, é uma prova eloquente de que os investidores já consideram as empresas sustentáveis mais competitivas e resilientes.
A sustentabilidade tem, ainda, duas outras grandes virtudes: por um lado, confere propósito aos produtos e à atividade da empresa – o que é muito importante para os seus clientes e trabalhadores; por outro, é uma excelente oportunidade de investimento.
No que diz respeito ao propósito, trata-se de uma variável cada vez mais importante para a fidelização de clientes, sobretudo da geração millennial e Z, os quais desejam poder fazer do consumo um ato de cidadania. Por outro lado, a atração e retenção de talento dependerá cada vez mais da capacidade da empresa ter um propósito maior do que apenas ser lucrativa. Não faltam estudos que o comprovam.

Já no que diz respeito à oportunidade de investimento, só o Pacto Ecológico Europeu vai investir mais de um bilião (um milhão de milhões) de euros até 2030 e Portugal irá investir 2 mil milhões por ano na economia verde, até 2027. Mas o fenómeno do investimento na sustentabilidade é global e transversal a setores público e privado. No que diz respeito aos privados, em 2020, os valores investidos em fundos de investimento ESG e em obrigações verdes, bateram todas as expetativas e recordes históricos.

Por ser um driver cada vez mais forte de competitividade, são cada vez mais abundantes os artigos de consultoras de gestão estratégica, como a McKinsey, e de escolas de gestão, como Harvard ou o MIT, a defender que esta deve passar a ter um papel central na cultura organizacional, nas políticas de inovação, nas escolhas de tecnologias, nas opções de design ou de materiais dos produtos, entre tantas outras dimensões que compõem as decisões estratégicas e quotidianas que as empresas têm de tomar no seu dia-a-dia para serem competitivas. Sendo certo que cada vez mais empresas não querem ser as melhores do mundo, mas sim as melhores para o mundo.

  Esta entrevista faz parte da Quidnews #30. Veja a revista completa aqui.

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