joana paredes alves entrevistada para quidnews 30

Joana Paredes Alves

Acredita que as tecnologias digitais podem apoiar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Se sim, consegue indicar-nos os objetivos em que a tecnologia tem maior potencial de impacto?

Sim, acredito que a tecnologia tem um papel fundamental para ajudar a acelerar o cumprimento da Agenda 2030, impactando qualquer um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A tecnologia fornece soluções inteligentes para lidar com problemas globais como as alterações climáticas, a fome, a pobreza e outros desafios globais. A título de exemplo é um instrumento necessário para melhorar a produção industrial e agrícola e de energias renováveis, fornecer cuidados de saúde móveis, acesso à educação e empoderamento das mulheres.

Além disso, a tecnologia contribui para uma maior eficiência e transparência dos indicadores ESG (ambientais, sociais e de governance), que acaba por impactar positivamente todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A tecnologia é no fundo uma alavanca ou motor que impulsiona soluções práticas e inovadoras que podem contribuir para um crescimento inclusivo e sustentável.
Embora a tecnologia tenha um foco especial no ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestruturas), que tem como objetivo fomentar a inovação tecnológica e o aumento da infraestrutura, principalmente nos países mais pobres, esta tem um papel fundamental para que todos os 17 objetivos sejam alcançados.

E quais as áreas que melhor podem usufruir da tecnologia?

Acredito que todas as áreas a que se referem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável podem usufruir dos benefícios da tecnologia e da inovação.
Destaco que existe a promessa da Agenda 2030 de não deixar ninguém offline e trazer o poder das tecnologias de informação e comunicação para todos, sendo as TIC vistas como aceleradoras de inovação e mudança.

Com o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, há o aumento evidente nas capacidades de reunir, analisar, gerir e trocar informações em diversas áreas, como na agricultura, educação e saúde. Na erradicação da pobreza e das desigualdades, assuntos tratados pelos ODS 1 e 10, a ‘big data’ possui um enorme potencial para o benefício público. Assim como o acesso universal a telemóveis, internet e a apps que permitem às pessoas ter acesso à educação, saúde, serviços públicos e privados ou oportunidades de emprego, certamente contribuirá para os ODS.

Além disso, como todos sabemos, sem o compromisso das empresas para com o desenvolvimento sustentável, não vamos conseguir ultrapassar os vários desafios ambientais e sociais que nos ameaçam atualmente. Na APlanet reconhecemos o papel fundamental que a tecnologia desempenha como enabler para o desenvolvimento sustentável, e por esse motivo desenvolvemos plataformas tecnológicas (SaaS) com o objetivo de ajudar as empresas a serem mais eficientes na sua gestão da sustentabilidade e a melhorar os seus impactos.

Em comparação com 2015, altura em que as Nações Unidas desenharam e adotaram os ODS, a conjuntura socioeconómica está totalmente diferente devido à pandemia, que veio dificultar o cumprimento do programa. A 10 anos da meta, parece-lhe ainda possível atingirmos estes Objetivos?

Quero continuar a acreditar que ainda é possível, mas ao ritmo a que estamos a ir, se continuarmos assim, não chegaremos lá. Precisamos da colaboração de todos, porque a responsabilidade é de todos.

Desde 2015 com o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Protocolo de Paris, a ameaça das alterações climáticas, crise da biodiversidade e desigualdades e direitos humanos, estão cada vez mais internalizadas na consciência colectiva. A sustentabilidade tem cada vez mais de estar no centro dos negócios e existe uma responsabilidade acrescida para que as empresas sejam sustentáveis, seja por motivos de compliance, ou simplesmente porque existe cada vez uma pressão maior por parte dos seus stakeholders internos (acionistas, colaboradores) e externos (clientes, consumidores), para que estas assumam o compromisso de contribuir para o bem comum. Além disso, existe uma pressão cada vez maior no sector financeiro para investir em empresas que integrem critérios ESG (ambientais, sociais e de governance).

Na minha opinião, trabalhando todos os dias na APlanet com várias empresas em diversas geografias, noto que por um lado a pandemia veio de alguma maneira servir de “wake up call” para que as empresas comecem a olhar para dentro e reconhecer a crescente importância dos temas da sustentabilidade. Por outro lado, é indubitável que a crise financeira provocada pela crise sanitária veio acentuar ainda mais as desigualdades sociais e a pobreza, entre outros problemas. Neste sentido, e agora mais que nunca, a colaboração de todos é urgente para atingirmos as metas da Agenda 2030.

Como podemos recuperar este tempo durante a próxima década?

Como referi anteriormente, somente com a colaboração de todos poderemos enfrentar os grandes desafios ambientais e sociais que nos ameaçam e alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Se queremos construir um mundo melhor, mais sustentável e mais justo, todos nós devemos ter um papel ativo nessa construção, repensando os nossos hábitos e promovendo ações que beneficiem o planeta e as pessoas à nossa volta. A Agenda 2030 é um acordo entre países, mas que não pode ficar restrita apenas aos governos. Empresas, organizações sociais e indivíduos são essenciais para que as metas sejam atingidas dentro do tempo estipulado.

De acordo com a informação que encontrei, a APlanet atua em três principais mercados: Portugal, Espanha e Brasil. Que avaliação faz da atuação das empresas de cada um destes países relativamente aos ODS? Encontra diferenças entre os mercados?

Verificamos que em todos esses mercados a maioria das grandes empresas que operam globalmente já têm a sua estratégia de sustentabilidade alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e estão à procura de ferramentas para ajudá-las a melhor gerir e monitorizar se as suas ações vão de encontro ao alcance desses objetivos. No entanto, reconhecemos que nestas geografias onde operamos, é mais desafiante para as pequenas e médias empresas fazê-lo corretamente, já que a maioria não dispõe de recursos internos dedicados à sustentabilidade

Acredita que a cultura que procura promover a sustentabilidade tem ganho terreno e, com isso, têm sido criadas iniciativas de impacto real e duradouro ou que se trata apenas de uma formalidade onde as empresas tentam preencher os requisitos mínimos?

Existem empresas que estão a liderar o caminho e que já têm este “purpose” integrado no seu ADN e assumem um verdadeiro compromisso com a sustentabilidade. Nestas empresas a estratégia de negócio e a estratégia de sustentabilidade são uma só. Depois, há empresas que o fazem apenas por questões de compliance com obrigações legais e para não comprometerem a sua reputação. Assim como, existem cada vez mais empresas, que quer por estarem na cadeia de valor das empresas que estão sujeitas a obrigações legais, ou quer pela crescente pressão dos consumidores, têm cada vez mais que demonstrar os seus impactos.

Uma das missões da APlanet é demonstrar às empresas que a questão da sustentabilidade vai muito além do compliance, pois está provado que as empresas que integram a sustentabilidade no seu negócio, estarão a criar maior valor ao seu negócio, e consequentemente também um melhor desempenho económico. Para isso, na APlanet desenvolvemos ferramentas tecnológicas que permitem alavancar a gestão da sustentabilidade das empresas.

O que difere a APlanet dos principais competidores desta área de atuação?

Vemos que muitas das soluções para a gestão e reporting da sustentabilidade são “unidimensionais” no sentido em que somente se focam ou na parte ambiental (carbon footprint tracker) ou social (plataformas de voluntariado). Na APlanet temos uma abordagem holística da sustentabilidade, que responde aos principais “pain-points” da gestão da sustentabilidade como um todo: ambiental, social e de governance. As nossas soluções destacam-se também por serem mais user-friendly e flexíveis no sentido de a tecnologia se adaptar facilmente à realidade de cada empresa, de acordo com o seu grau de complexidade e maturidade ao nível da sustentabilidade.

Qual diria que é o principal erro das empresas no que diz respeito à sustentabilidade? E como é que este pode ser resolvido?

Muitas empresas não estão a abraçar o facto de a sustentabilidade dever ser integrada de forma estratégica e transversal, alocando estes temas apenas a um departamento. No entanto, é um facto que a sustentabilidade tem que cada vez mais ser considerada uma centralidade e não uma externalidade do negócio.

Está provado que as empresas que têm um propósito que vai além do lucro dos seus acionistas, são mais rentáveis. Até iria mais longe, creio que o facto das empresas serem sustentáveis ou não a médio e longo prazo vai implicar na sua sobrevivência ou não no mercado. Isto significa que as empresas devem cada vez mais dedicar recursos para compreender verdadeiramente quais são as questões materiais em que a empresa se deve concentrar em termos de sustentabilidade e onde podem melhorar os seus impactos.
A APlanet pode ajudar as empresas a fazer esta transformação, facilitando a gestão e a comunicação da sua sustentabilidade.

Por último, qual foi o trigger para passar de uma carreira profissional enquanto advogada e professora para um caminho ligado à sustentabilidade?

Desde muito cedo que queria ser advogada e exerci a profissão durante 10 anos. No entanto, a minha desilusão com o direito teve que ver com o facto de muitas vezes o direito e a justiça não coincidirem. Deparei-me muitas vezes ao longo da minha carreira em ter de defender os interesses dos meus clientes que por vezes colidiam com os meus princípios e valores, e senti que queria ser eu a escolher as causas que queria defender, assim como as minhas próprias batalhas.

Ao mesmo tempo, através das inúmeras viagens que fiz pelo mundo nos últimos 15 anos, fui observando os efeitos nefastos das alterações climáticas e as desigualdades sociais, e decidi que queria dar a minha contribuição a estas causas que vão de encontro ao meu propósito. Um trigger importante deveu-se ao facto de em 2012, quando vivia em Nova Iorque, ter ficado desalojada durante 2 meses devido ao impacto devastador do furacão Sandy e à consequente subida do nível das águas no sul de Manhattan.

Além do mais, sou uma grande apaixonada pelo poder da tecnologia e inovação e acredito que é nas startups onde existe mais agilidade e potencial para resolver problemas em concreto.
Daí ter fundado em 2019 em Espanha a APlanet, para através da nossa tecnologia, ajudar as empresas a terem um melhor impacto ambiental e social e a atingirem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

  Esta entrevista faz parte da Quidnews #30. Veja a revista completa aqui.

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