Defesa sem estratégia: lições da história sobre vulnerabilidade e dissuasão*
A Europa encontra-se numa nova encruzilhada histórica. A guerra voltou ao continente, sob formas assimétricas e tecnologicamente mediadas, radicalmente diferentes das que marcaram o século XX. Infraestruturas críticas, cadeias logísticas e fluxos de informação tornaram-se alvos preferenciais. Tecnologia, energia e geopolítica entrelaçam-se numa nova gramática do poder (Vershinin, 2022).
Em paralelo, a multiplicação de ataques terroristas, crimes de ódio e conflitos de matriz política ou religiosa sinaliza que as fragilidades internas do projeto europeu permanecem latentes e exigem mais do que respostas operacionais: exigem pensamento estratégico, capacidade institucional e preparação para o inesperado.
A invasão da Ucrânia pela Rússia teve início em 2014, com a anexação da Crimeia, mas foi a ofensiva militar em larga escala lançada em fevereiro de 2022 que marcou uma rutura profunda na ordem de segurança europeia. Essa escalada devolveu o continente à lógica da ameaça existencial e demonstrou que a dissuasão exige mais do que intenções ou compromissos formais (Council on Foreign Relations, 2025).
A questão não é apenas se a Europa está disposta a defender-se. É se sabe como o fazer, porque defender-se implica mais do que dispor de forças armadas ou equipamento militar: implica sistemas, processos, informação fiável e capacidade de decis
A Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, ilustra a importância da gestão da dissuasão. Durante 13 dias, EUA e União Soviética enfrentaram o risco iminente de guerra nuclear. Não foi o arsenal bélico que evitou o pior, mas sim uma combinação frágil de comunicação, prudência e decisão individual (Betts, 1995). O episódio demonstrou que a ausência de coordenação e de sistemas operacionais de gestão de informação pode ser tão perigosa quanto a presença de ogivas nucleares.
Na maioria das situações, não é a coragem individual que determina o desfecho de um conflito, mas a robustez dos sistemas que o sustentam. A história da guerra é também a história da retaguarda: de quem garante o abastecimento, a mobilidade, a alimentação e a atualização da informação operacional (Keegan, 1993; Van Creveld, 2004). Como defendeu Henry E. Eccles, um dos principais teóricos da logística militar, sem bases logísticas eficazes, não há estratégia que sobreviva à realidade operacional (Eccles, 1959). Por conseguinte, não será suficiente para a Europa uma visão excessivamente centrada no armamento e na força visível, em detrimento da capacidade técnica, logística e organizacional que verdadeiramente sustenta a soberania. Este ensaio parte de um princípio metodológico claro: compreender o presente exige conhecer o passado e antecipar o futuro implica reconhecer os sinais estruturais do presente.
A abordagem escolhida é reflexiva e ensaística, cruzando episódios históricos com desafios contemporâneos de gestão estratégica e tecnológica. Assume-se, aqui, uma perspetiva construtivista da segurança europeia, onde a cultura estratégica não é um dado adquirido, mas uma construção institucional, política e discursiva em constante evolução (Meyer, 2005; Rynning, 2003). Este debate cruza-se ainda com a evolução institucional, como nota Brøgger (2024, p.3) ao afirmar que “os compromissos vinculativos e a governação supranacional estão a remodelar o papel da União Europeia na segurança e na defesa”.
Tal ideia confirma que a integração europeia em defesa já não é apenas cooperativa, mas também regulatória. Mostramos que a defesa, longe de ser um domínio reservado a militares ou decisores políticos, depende também da contribuição articulada de engenheiros, gestores, psicólogos, economistas, programadores e analistas de sistemas. Nas palavras de Georges Clemenceau, “a guerra é uma coisa demasiado grave para ser deixada aos militares” – e, no século XXI, esta gravidade exige competências civis e técnicas amplamente distribuídas. (Clemenceau, cit. in Citador, 2023). A retaguarda (espaço de planeamento, gestão e decisão) transformou-se na nova linha da frente.
As guerras do passado perdiam-se por botas rotas; as do presente, por dados desatualizados; as do futuro, por fluxos de decisão mal configurados (Naisbitt, 1982; Sullivan e Dubik, 1994). A soberania depende não apenas do aço e da pólvora, mas da capacidade de integração entre atores, tecnologias e domínios operacionais (Agência Europeia de Defesa, 2024; Luttwak, 2001).
Investir em defesa vai mais além das metas orçamentais e da aquisição de equipamentos. Significa aplicar os recursos com rigor, modernizar sistemas, rever processos, integrar dados, garantir interoperabilidade e cuidar das pessoas que executam essas funções estratégicas (Comissão Europeia, 2024a; Draghi, 2025). Defender a Europa é geri-la com inteligência. E esta inteligência não é apenas natural ou artificial; é estratégica. Fundamenta-se na capacidade de antecipar tendências, alinhar recursos, monitorizar variáveis críticas e adaptar-se em tempo útil.
Segundo a definição da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), uma lógica de governo antecipatório incorpora, entre outros elementos, a gestão da incerteza, bem como a integração da antevisão, experimentação e inovação como componentes centrais da tomada de decisão estratégica (OCDE, 2023).
A guerra do futuro, e o futuro da paz, serão decididos em dashboards e na qualidade da governação da defesa. E, no entender dos autores deste artigo, em colocar a gestão no centro da estratégia. (…)
*Este excerto corresponde à “Introdução”. O artigo completo, publicado originalmente na Revista Nação e Defesa, está disponível aqui.


