São cada vez mais as empresas que comparam os custos decorrentes de uma gestão de projectos profissional com os custos de um projecto mal gerido. Os fornecedores destes serviços elencam os erros mais comuns e apontam tendências rumo a uma gestão de projectos de TI mais profissional.
«Custa mais um gestor de projecto ou um projecto mal gerido?» Quem faz a pergunta é José Luís Ferreira, partner da Pessoas e Processos, uma das empresas nacionais que actuam na área de gestão de projectos. «Qual é o custo de não gerir um projecto e de não perceber atempadamente o caminho do insucesso? Qual é o custo de não avançar com um projecto bem planeado, organizado e gerido, que levaria ao sucesso, comparativamente com os custos de gestão dos mesmos?», continua. Se a altura é de crise, e o rigor na análise de um investimento, de uma mudança na empresa, se torna mais exigente, então devem ser avaliadas todas as vertentes, defende este responsável.
A receita parece estar a ser usada por cada vez mais organizações, que têm apostado de forma crescente na gestão de projectos, mesmo em tempo de racionalização de investimentos. Os custos elevados resultantes da alocação de recursos para o desenvolvimento de projectos de TI que depois não produzem os efeitos desejados têm sensibilizado as empresas para a necessidade de mecanismos de gestão mais profissionalizados. Isso nota-se no número crescente de ofertas de serviços, ferramentas e formação especialmente vocacionados para a área de gestão de projectos.
«Essencialmente, são as médias e as grandes organizações que nos procuram. Organizações cujas complexidade e criticidade dos seus projectos de TI requerem uma gestão profissionalizada de projectos. São projectos que pela sua dimensão e impacto ao nível de negócio não podem ser deixados ao “amadorismo” comum», explica Sónia Jerónimo, directora-geral da KCS IT, que nesta área trabalha sobretudo com a banca, os seguros, os transportes, a aviação comercial e os serviços. «Cada vez mais as organizações olham para as suas direcções de sistemas de informação como áreas projectadas e como um asset importante. Como tal, procuram empresas especializadas e com elevadas competências nestas matérias», explica a mesma responsável.
No mercado vão encontrar uma oferta diversificada de fornecedores que tendem a reunir cada vez mais um leque de competências diversificado, abarcando consultoria, formação e implementação de metodologias que acompanham a própria filosofia de gestão da empresa.
Alexandre Rodrigues, executive partner da PMO Projects, empresa cem por cento especializada nesta área de negócio e com competências nos domínios da formação, metodologias/processos e ferramentas tecnológicas de suporte, admite que ambos os cenários coexistem. Nas indústrias projectizadas, ou que trabalham com grandes projectos, como é o caso da construção civil, o primeiro cenário é mais frequente. Já nos sectores de telecomunicações, software e banca existe a tendência para pedir apoio na definição de metodologias gerais.
«Por exemplo, os Aeroportos de Moçambique acabaram de nos contratar para apoiar a construção do novo aeroporto de Nacala, e isso é um caso de um projecto concreto. O INSS de Angola também nos contratou para o apoiar na gestão de um grande programa organizacional», aponta Alexandre Rodrigues, assegurando no entanto que, mesmo nos casos em que o apoio para a gestão de projectos é requisitado para situações específicas, como as que enumerou, as lições aprendidas com os casos concretos passam numa segunda iniciativa para o foro do desenvolvimento de uma metodologia geral, aplicável a todos os projectos.
O momento em que a ajuda externa à gestão de projectos é mais crítica também não é sempre igual; pode variar em função da maturidade da empresa. Se bem que Leandro Pereira, director do Centro de Competências de Project Management da GTBC, acredita que em Portugal a dificuldade não passa tanto por definir as metodologias que devem ser implementadas na organização, para dar previsibilidade às rotinas e aos projectos que esta vai desenvolvendo, mas está mais ao nível da capacidade para pôr a máquina a trabalhar na direcção certa. «Existem já frameworks nas organizações; a questão reside em pô-las em prática, contornar e derrubar as barreiras, as resistências e ganhar a aderência por parte das equipas», esclarece.
Onde falham os projectos TI?
Os projectos falhados e as ineficiências que estão na génese das falhas são o driver que leva as empresas a olhar para o tema e procurar novas abordagens. São o rastilho para a aposta em metodologias e tecnologias de suporte experimentadas. Mas a questão não é simples, como se pode perceber pela própria avaliação dos fornecedores que prestam serviços nesta área, no que se refere aos momentos mais críticos para o sucesso ou insucesso de um projecto TI.
Sónia Jerónimo, da KCS IT, admite que a questão é «fortemente pertinente, e sem dúvida bastante discutível», por isso responde-lhe com estudos e estatísticas, que apontam a falta de comunicação como o principal factor de fracasso dos projectos. «A falta de cumprimento de prazos aparece logo a seguir. Também as alterações de âmbito traçam normalmente fins pouco simpáticos aos projectos de TI», considera.
Com uma metodologia de gestão de projectos própria, certificada de acordo com a norma ISO 9001 e conforme as práticas de CMMI, a Novabase defende, por seu lado, que «todas as fases da gestão de projectos são igualmente importantes, tendo em consideração o que se pretende obter em cada uma delas: o arranque pela gestão das expectativas, o planeamento pela construção da baseline de tempos, recursos e entregas, o controlo pelo acompanhamento continuado e o encerramento pela avaliação da satisfação e recolha das lições aprendidas», detalha António Ferreira, senior manager da tecnológica portuguesa.
O ponto de vista é partilhado por mais fornecedores mas, mais uma vez, com nuances. «Efectivamente todas as fases são importantes e dão o seu contributo único para o processo de gestão de projecto. Mas as fases de planeamento e de monitorização e controlo são sem dúvidas as mais intensivas e em que o know-how em gestão de projectos é mais importante», acredita Alexandre Rodrigues. «São as fases que definem o rumo do projecto e conduzem a sua execução.»
Para o executive partner da PMO Projects, é aliás nestes dois momentos que se cometem mais erros, principalmente nas organizações e culturas com um grau de maturidade mais baixo. Considera que um dos sinais mais importantes de uma boa cultura de gestão é a valorização do período de tempo dedicado ao planeamento, a par do acompanhamento baseado em medição de desempenho.
Muitas organizações desvalorizam esta fase para acelerar o desenvolvimento dos projectos, acabando por comprometer os resultados. «Planear está para a gestão de projecto como desenhar está para a engenharia. Planear bem implica uma mentalidade e um conjunto de competências que, infelizmente, não está presente em muitas organizações. O controlo, por outro lado, implica ter visibilidade sobre os desvios e sobre o desempenho de forma mensurável - ou seja, através de métricas.» Nesta área, as empresas menos maduras tendem a substituir dados objectivos por interpretações subjectivas e por decisões baseadas em intuição, e o fracasso aparece. A experiência da PMO Projects permite-lhe identificar um outro motivo que explica o insucesso de muitos projectos TI - também aplicável aos projectos noutras áreas - e que tem que ver com a falta de continuidade das iniciativas de promoção e de sustentabilidade quando ocorrem transições na gestão da organização. «A não continuidade das iniciativas da anterior equipa de gestão é um dos problemas que mais afectam o desempenho das nossas organizações em Portugal; trata-se uma vez mais de um problema de maturidade», acredita Alexandre Rodrigues.
Metodologias infalíveis não existem
Consensual entre os vários fornecedores é o facto de não existirem soluções infalíveis para garantir o sucesso dos projectos que organizam a actividade ou algumas das actividades das empresas, até porque os factores mais importantes para o sucesso são outros. No que concerne às metodologias, existem no mercado várias abordagens que podem caber bem num projecto e mas ser desadequadas a outros. Tudo depende da abrangência, do foco e mesmo da área em questão.
«A escolha da metodologia, quer sejam mais clássicas, quer sejam mais disruptivas, como as metodologias Scrum, assim como da ferramenta de suporte à gestão de um projecto não é por si só garantia do sucesso do mesmo projecto noutro ambiente», concorda Roberto Sousa, gestor de projecto na Mind Source. Há que juntar a estes «factores de natureza humana, tecnológica, cultural e financeira».
Ainda assim, algumas tendências dão nas vistas. A viragem para as metodologias ágeis, que trazem para a gestão de projectos uma dinâmica diferente, é um exemplo disso. Nesse universo, um dos métodos que têm ganho algum relevo é o Scrum, com vantagens e desvantagens associadas já reconhecidas.
Aplicado a projectos no universo do desenvolvimento de software, distingue-se por garantir uma alta visibilidade do trabalho e a focagem da equipa em projectos com objectivos de pequena dimensão e deadlines agressivas. «A grande vantagem do método é que se obtêm resultados bastante cedo, mas exige que a equipa tenha uma elevada maturidade e disciplina de trabalho. O método pode ter um resultado muito negativo se não houver accountability ou motivação por parte das equipas», defende Leandro Pereira da GTBC. «Porém, a elevada visibilidade sobre o trabalho, com a crescente obrigatoriedade de apresentar resultados em deadlines apertadas, tende a minimizar este efeito», acrescenta.
Fonte: Semana Informática